Mensagens obtidas pelos investigadores do caso Master mostram que o empresário e pastor Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do seu cunhado, o banqueiro Daniel Vorcaro, tinha em seu celular uma planilha com uma “lista dos pagamentos pendentes” que incluía o repasse de R$ 1 milhão ao empresário Chiquinho Feitosa, ex-cunhado do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).Em 10 de janeiro de 2025, Zettel encaminhou a Vorcaro uma lista de pagamentos pendentes, que citava “FA (Chiquinho)” junto com o valor de R$ 1 milhão, referente aos meses de dezembro e janeiro. Chiquinho é sócio-administrador da F&A Empreendimentos Imobiliários e da F&A Consultoria em Gestão Empresarial e Logística e Transporte, o que confirma os indícios de que os pagamentos eram mesmo para ele.Chiquinho é ex-senador, ex-deputado federal e presidente do Republicanos no Ceará, com atuação no setor de transportes. Na época do envio da planilha de pagamentos, ele ainda era cunhado de Gilmar. O ministro se divorciou da advogada Guiomar Feitosa, irmã de Chiquinho, em novembro de 2025, ou seja, onze meses após Zettel compartilhar a planilha de pagamentos com Vorcaro.Procurado pela equipe da coluna na última segunda-feira (21), Chiquinho não se manifestou. Na última quinta-feira (17), Chiquinho disse ao blog que teve um contrato de “curto período” com a Super Empreendimentos, do ecossistema do Master, mas não esclareceu o período de vigência, o valor nem o escopo de atuação. Segundo a Folha de S. Paulo, o montante era de R$ 500 mil mensais.A planilha que Zettel enviou a Vorcaro incluía despesas com aeronaves, condomínios, impostos atrasados (R$ 1,7 milhão) e R$ 1,5 milhão a “Bellini”, em referência ao ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central (BC), Belline Santana, que recebia dinheiro de Vorcaro para agir a favor do banco, segundo os investigadores.## ‘Importante para o futuro’Em abril de 2024, Vorcaro foi aconselhado por Chiquinho a se aproximar de Gilmar Mendes, sob a alegação de que seria “importante para o futuro”. Nas conversas obtidas pela equipe do blog, Chiquinho se refere ao dono do Banco Master como “irmão” e se apresenta como uma ponte entre Vorcaro e o ministro do Supremo.“Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro! Ele é um grande sujeito com grande caráter e um grande amigo”, escreveu Feitosa para Vorcaro em 19 de abril de 2024, ao sugerir a aproximação do banqueiro com o decano do STF.Em nota enviada à imprensa, Gilmar informou que no dia 11 de abril de 2024, às 18h, recebeu Vorcaro em seu gabinete para uma audiência na sede do tribunal, “em ambiente institucional e não em espaço privado”, para tratar do processo da Destilaria Alcídia, que cobrava a reparação de prejuízos provocados pela política de fixação de preços do governo na década de 1980. De acordo com o gabinete de Gilmar, Chiquinho não participou da audiência.A ação envolvia pagamentos entre R$ 350 milhões e R$ 500 milhões e interessava a Vorcaro, já que o resultado do julgamento poderia produzir uma tese que teria impacto direto nos negócios do Master. Gilmar, no entanto, acabou votando contra a destilaria, o que frustrou Vorcaro.No período de expansão meteórica do Master, o modelo de negócios do banco era em boa parte sustentado por precatórios – ordens de pagamento determinadas pela Justiça a municípios, estados ou a União que costumam demorar anos para serem liberados. O banco comprava esses papéis a um preço baixo e não só inflacionava os valores no balanço, como também os considerava créditos de recebimento garantido. Naquele ano, 47% da carteira era composta por precatórios e direitos creditórios comprados pelo Master.O processo sobre a Alcídia foi alvo de uma série de interrupções. Em 25 de março de 2024, quando a análise do caso foi retomada, Gilmar pediu destaque, interrompendo a discussão. Em 26 de agosto de 2024, o decano voltou a agir: cancelou o pedido de destaque. Quando o processo retornou à pauta, em 18 de setembro, foi a vez de Kassio Nunes Marques pedir vista.O processo foi finalmente julgado em outubro de 2024, quando a usina derrotou a União por 3 a 2. Os dois votos que ficaram do lado da União vieram de Gilmar Mendes e de André Mendonça, com quem o ministro tem travado atualmente uma guerra pública por conta da condução das investigações do caso Master.Questionado pela equipe do blog na semana passada, o ministro frisou que votou contra os interesses da destilaria e de Vorcaro, como se posicionou em "todos os demais casos do setor sucroalcooleiro julgados na Segunda Turma".
Planilha enviada a Vorcaro inclui pagamento de R$ 1 milhão a ex-cunhado de Gilmar Mendes
Planilha enviada a Vorcaro inclui pagamento de R$ 1 milhão a ex-cunhado de Gilmar Mendes
Por Redação
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